Gestão C&T Online
Matéria publicada na edição nº 624 do Gestão C&T online, 11 de julho de 2007

13 - Jornalista paraense defende formação de especialistas dedicados às questões regionais da Amazônia 

     Após a apresentação da palestra Qual é o lugar da Amazônia no século 21, ministrada ontem (10), na 59ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o jornalista e sociólogo Lúcio Flávio Pinto criticou o ditado brasileiro "Quem sabe faz, quem não sabe ensina". Para ele, "quem ensina sabe fazer". Na sua avaliação, é disso que t
anto os políticos quanto a sociedade devem ter consciência. 
     Para o jornalista, a educação na região Norte do país deve começar a ser tratada com primazia, para que sejam formados especialistas que se dediquem às causas regionais. Na percepção de Lúcio Flávio, a formação de doutores poderá disponibilizar para a região o conhecimento que falta para o estudo da biodiversidade e da riqueza amazônica. “Temos de criar um projeto em que a ciência na Amazônia seja prioridade”, avalia. De acordo com ele, essa ciência deve se adequar às condições da região, já que o ambiente é caracterizado por grande peculiaridade.
     A importância da especialização dos profissionais da região é tanta que o jornalista vislumbra a concepção de "prêmios Nobel na Amazônia". Para ele, é essa especificidade que garantirá a continuidade dos projetos e um olhar mais atento para a floresta e seus habitantes. "Os melhores profissionais do mundo têm que estar aqui [na região amazônica]". Para isso, Lúcio Flávio ressalta a necessidade de se buscar especialistas do mundo inteiro. Na sua visão, o desafio nacional é: vontade, recursos e orientação.
     Exemplificando a sua perspectiva, o jornalista expõe que, em certa ocasião, dois pesquisadores, um inglês e o outro brasileiro, foram à floresta estudar os índios ianomâmis. “O inglês ia para passar três anos, o brasileiro para passar três meses. O inglês ia com sal e farinha, o brasileiro ia com leite condensado, com creme de leite. Então, nós não estamos preparados”, critica. Para Lúcio Flávio, outras culturas têm a sistematicidade para se dedicar aos estudos e, somente depois de concluí-los, usufruem da realização.
     Lúcio Flávio também lembra que os paraenses são os maiores consumidores de açaí no mundo, mas quem mais conhece o fruto é o Jardim Botânico de Nova Iorque. "Eles sabem que o açaí tem 23 utilidades. Hoje, o mercado norte-americano usa mais açaí do que nós", revela.
     Questionado sobre a disparidade em se dizer que a Amazônia é dos brasileiros e observar que grande parte dos recursos para pesquisa na floresta é internacional, o jornalista é enfático e avalia não ser ambígua a afirmativa. "É paradoxal e vergonhoso, mas é a realidade. Se os agentes financeiros de pesquisa se retirassem da Amazônia, no mínimo 70% da pesquisa pararia", avalia. 
     (Danilo Godoi, de Belém, para o Gestão C&T online)


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