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Reunião
do Fórum Nacional de Secretários Estaduais para
Assuntos de C&T - Fortaleza, 02/12/99
Embaixador
Ronaldo Mota Sardenberg
Ministro
da Ciência e Tecnologia
O
Fórum Nacional de Secretários para Assuntos de Ciência
e Tecnologia dos Estados da Federação representa uma feliz
iniciativa, que vem plenamente ao encontro da política do Governo
Federal para o setor da ciência e tecnologia. Agradeço, pois,
vivamente, a oportunidade que me é dada e aos demais membros da
equipe dirigente do MCT que me acompanham de nos dirigirmos aos
senhores esta tarde.
Sobram
razões para atestar a importância estratégica que
as diferentes regiões do País, dentro de suas especificidades,
têm e terão na área de ciência e tecnologia.
É essencial que os Estados disponham de condições
que lhes permitam afirmar suas vocações estratégicas
em matéria de pesquisa e desenvolvimento, consolidar seu crescimento
sócio-econômico e prestar sua contribuição
para a integração nacional e para a inserção
do País na economia mundial.
O
incremento da capacitação regional em ciência e tecnologia
é fundamental para a construção do futuro.
Nas
próximas décadas, a melhoria da qualidade de vida da população,
o bem estar e as perspectivas de progresso sustentável do País
estarão fortemente condicionados pelas ações de ciência
e tecnologia. Estas serão, igualmente, fundamentais para assegurar
a presença atuante, produtiva e competitiva do Brasil no quadro
internacional.
Para
isso, necessitamos implementar as propostas de desenvolvimento, reforçar
o processo de industrialização, planejar conscientemente
a superação das desigualdades, tanto entre as grandes regiões
do País quanta, sobretudo, entre as distintas camadas da população.
Devem, igualmente, estar presentes as componentes da competitividade,
da medição da performance, da cobrança de bons resultados.
Para
citar um exemplo das enormes demandas das diferentes regiões do
País, mencionaria a necessidade de criar apenas no Nordeste mais
12,5 milhões de empregos até o ano 2020. Este é um
desafio estratégico.
A
resposta passa pelo aumento da oferta de educação e qualificação,
de investimentos em infraestrutura econômica e social, de forma
a corrigir as distorções existentes, implementação
de políticas de apoio à pequena produção e
medidas ativas para distribuir de forma eqüitativa esses investimentos
entre as regiões.
O
Governo Federal atua com vigor no sentido de contra-arrestar as novas
tendências negativas e de reverter males seculares.
Contamos,
para isso, com bom número de instrumentos que nos permitem administrar
os recursos públicos com vistas a três horizontes:
-
a visão de 8 anos, refletida no conjunto de oportunidades de
investimentos públicos e privados necessários ao desenvolvimento
do Pais. Este é caso dos Eixos Nacionais de Integração
e Desenvolvimento, que buscam o aumento da competitividade sistêmica
da economia e a maior integração nacional, com redução
das disparidades regionais e sociais;
- a visão
de 4 anos, que contém todas as ações do Governo
Federal, com seus objetivos, metas e valores claramente definidos. Este
é o Avança Brasil, que parte das demandas concretas da
sociedade e das orientações estratégicas do Governo
e organiza de forma transparente as suas ações para atender
àquelas demandas, muitas vezes em parceria com o setor privado
e a sociedade civil organizada;
- a visão
anual, com a programação de todos os projetos e atividades
do Governo Federal para o ano seguinte, que consta no Orçamento
da União.
O
Plano Plurianual para o período de 2000-2003 e o Orçamento
da União para 2000 representam etapas do projeto de longo prazo
desenhado pelos Eixos Nacionais de Integração e Desenvolvimento.
Gostaria
de lembrar as palavras do Presidente Fernando Henrique Cardoso na mensagem
de envio do PPA ao Congresso Nacional e que norteiam nossa ação:
A
construção de uma nova realidade requer visão clara
do futuro desejado e possível. Exige que os olhos do governo
estejam voltados para todo o território nacional, todas as regiões,
todas as comunidades, toda a população. Os Eixos Nacionais
de lntegração e Desenvolvimento permitem que se tenha
essa visão estratégica e de longo prazo do Brasil. Ao
analisar os problemas, vocações e potencialidades de crescimento
de cada regido, foi possível visualizar a sociedade brasileira
sobre o território nacional e identificar os projetos necessários
ao desenvolvimento sustentável do País num horizonte de
oito anos. Não são projetos voltados para cada unidade
da Federação em particular. São projetos para o
Brasil.
Empreendimentos
que devem ser assumidos não só pelo Governo Federal, mas
também por estados, municípios, iniciativa privada e sociedade
civil organizada. Uma convocação à união
de esforços para o desenvolvimento.
Os
22 programas do Ministério da Ciência e Tecnologia no contexto
do Programa Avança Brasil confirmam a importância crucial
da ciência e tecnologia para o desenvolvimento sustentável
do País.
Além
desses programas, o MCT tem 10 ações multissetoriais em
programas de outros ministérios. O volume total de recursos alocado
a todas essas iniciativas é de 14 bilhões de reais para
os quatro anos do PPA, sendo que, desse montante, o volume total de recursos
do Tesouro corresponde a 5.7 bilhões de reais.
Vale
registrar que, entre esses programas, cinco foram considerados estruturastes,
ou seja, têm foco prioritário e merecerão um tratamento
privilegiado do ponto de vista orçamentário:
- Climatologia,
Meteorologia e Hidrologia;
-
Inovação para Competitividade;
- Sistemas
Locais de Inovação;
- Sociedade
da Informação INTERNET II;
- Biotecnologia
e Recursos Genéticos.
Mencionaria
especificamente a importância que deve ser atribuída ao programa
de Sistemas Locais de Inovação. O esforço local de
estruturação tecnológica tem fortes impactos econômicos,
sociais e políticos e deve interagir com esforços de abrangência
geográfica mais ampla. Sob essa ótica, lançam-se
novos desafios à tarefa de elaborar e implementar políticas
de ciência e tecnologia.
Uma
das conclusões que desde já pode ser extraída é
a necessidade de dedicar-se atenção à estruturação
de sistemas estaduais de inovação, a exemplo da tecnópolis
de Santa Rita do Sapucaí, de Campinas, São Carlos e São
José dos Campos.
Nesse
sentido, não poderia deixar de citar algumas experiências
modelares de pólos tecnológicos que
já se encontram plenamente instalados e operacionais, como o Parque
Tecnológico Agro-Industrial do Oeste
do Paraná, a Incubadora Ago-Industrial de Cascavel, os parques
tecnológicos de Londrina e Pato Branco,
além dos pólos tecnológicos e empresas de base tecnológica
sediadas em diversas cidades de Santa Catarina.
É
preciso também citar as relevantes iniciativas em diferentes segmentos
tecnológicos implantadas no Estado de Minas Gerais, sobretudo no
campo da biotecnologia moderna, na Paraíba, que abriga o importante
centro de ensino e pesquisa em Campina Grande, e a recém-lançada
tecnópolis de Petrópolis. São apenas alguns exemplos,
além do muito que se pode fazer, como os pólos dinâmicos
do Nordeste, identificados pelo BNB e pela SUDENE.
Outra
iniciativa meritória, a ser seguida, é o Protocolo firmado,
recentemente entre o MCT, o MEC e o Governo do Estado do Rio de Janeiro
- para implantação do Programa de Apoio à Ação
Estadual de Recuperação e Reforço da Infra-Estrutura
de Pesquisa naquele Estado, com recursos federais e contrapartidas locais.
Os
objetivos das políticas estaduais de C&T serão cada
vez mais definidos em função da capacidade dos seus sistemas
de inovação, na busca seletiva de novas oportunidades e
de vantagens competitivas tendo como base a economia do Estado e o perfil
de sua população.
A
educação, a ciência e a tecnologia são, sem
dúvida, fatores chave da competitividade, que começa pelo
treinamento da mão de obra, o que eleva os horizontes pessoais,
familiares e profissionais dos trabalhadores e melhora suas possibilidades
e condições de emprego. Prossegue no esforço
pela competitividade na pesquisa e no desenvolvimento e termina na ap1icação
prática, economicamente produtiva, da inovação.
Sem
dramatizar, não hesitaria em afirmar que as inovações
nas próximas décadas serão tão ou mais intensas
que as observadas mesmo no passado recente e seu papel, na agregação
de valor e nas condições de competição, será nada menos que crucial.
Não
se trata de, no encerramento deste século, menosprezar as possibilidades
que nossa já longa trajetória de realizações
nos proporciona. É essa trajetória de praticamente cinqüenta
anos de investimento, desde a fundação do CNPq em 1951,
que nos dá oportunidade de conquistar vantagens comparativas, assim
como de inspirar soluções criativas e inovadoras.
Estou
certo que essas expectativas, que doravante iremos o MCT e os Governos
Estaduais -- explorar, aprofundar e conduzir, apoiam-se em percepções
amplamente compartilhadas pelo setor púb1ico, pela sociedade, pelo
segmento empresarial e pela área cientifica e tecnológica.
Assim serão formadas propostas de política que orientem
nossos esforços futuros.
Por
isso, estamos concentrando a atenção na definição
de prioridades estratégicas e na prospecção de programas,
projetos e ações multiplicadoras, das quais o Avança
Brasil constitui um excelente exemplo.
Nossa
tarefa é de grande magnitude. Precisa envolver não apenas
as lideranças nacionais, regionais e setoriais, mas também
as locais, assim como a cidadania. E seu enfoque político necessita
ser abrangente. sistêmico, de modo que cada órgão
interessado do Governo em suas três esferas cumpra
harmonicamente seu papel e que o mesmo se passe nas escolas, universidades
e empresas.
O
Brasil, apesar de nossas dificuldades, conseguiu chegar ao limiar da tecnologia
avançada em nível mundial. Muitas são as histórias
de nossas realizações.
O
mais recente exemplo de tecnologia brasileira foi o lançamento
do Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres
o CBERS, cm outubro passado. Ainda na área espacial, a própria
abertura da base de Alcântara para lançamentos comerciais
de outros paises também reflete a qualidade de nossa tecnologia.
Graças
à sua diversificação, o parque industrial brasileiro
logrou agregar competitividade a seus produtos.
Mas
há outros exemplos eloqüentes no tratamento das moléstias
cardíacas, nos transplantes, na produção de aviões,
na engenharia de construção civil, na produção
de petróleo em grandes profundidades, nas tecnologias para correção
do solo e desenvolvimento de sementes apropriadas, na computação
cientifica de alto desempenho e na expansão e melhoria dos serviços
de computação e telecomunicações.
No
entanto, nada disso é acessível sem condicionamentos políticos
complexos, o que implica uma mudança de atitude por parte dos diferentes
agentes envolvidos nesse processo. Costumo dizer que o MCT tem função
essencialmente mobilizadora. Seu trabalho, nessas áreas e em outras,
depende do envolvimento e cooperação ativa de diferentes
Ministérios e órgãos e, ainda, na verdade, de bom
número de atores econômicos e sociais.
A
capacitação cientifica, em nosso Pais, é, no fundamental,
um papel de Estado e, complementarmente, das empresas; enquanto promover
o desenvolvimento e inovação tecnológica são
tarefas primordiais das empresas que ao Estado cabe complementar.
Há,
pois, que estabelecer um equilíbrio dinâmico entre o Estado
e a iniciativa privada, em termos de políticas de formação
de pessoal, infra-estrutura, investimentos, incentivos e ap1icação
comercial, entre outras.
Aspecto
relevante, que não devo deixar de sublinhar, é assegurar
financiamento estáve1 para as nossas atividades, o que estará
predicado em mú1tiplos entendimentos dentro do Executivo Federal
e no fortalecimento de parcerias, muitas das quais já existem,
em nível estadual e municipal, além de outras possibilidades
junto a variados setores da economia.
Tudo
isso leva ao tema do revigoramento das relações institucionais,
o que implica uma aproximação maior com outros ministérios
atuantes na área de ciência e tecnologia. Implica também
uma relação próxima com as instituições
universitárias, que cumprem papel indispensável na capacitação
de pessoal e na pesquisa.
Colocadas
estas questões gerais, eu diria que o Fórum de Secretários
de Ciência e Tecnologia em articulação com o MCT,
deveria debruçar-se sobre algumas questões prioritárias.
A primeira delas, sem dúvida, é a necessidade de rnelhorarmos
nossa articulação no próprio Governo e, mesmo, com
a sociedade.
0
segundo ponto que sugiro ao Fórum considerar é a necessidade
evidente de maiores investimentos na área de C&T. Nós conseguimos ultrapassar o tradicional
patamar de 1% do PIB investido em ciência e tecnologia,
enquanto paises de alguma ambição, inclusive os emergentes,
investem em torno de 2% a 2,5% do
seu PIP.
Parece-nos
central a discussão aprofundada de desenvolvimento de meios para
a major participação das empresas nos dispêndios de
C&T. Notamos, por exemplo, que a despeito do êxito das leis
de incentivos, essa clientela não está aumentando e o por
quê disso é uma questão que devemos investigar.
O
terceiro problema são os desequilíbrios regionais, que precisam
efetivamente ser superados, tanto no nível dos investimentos públicos
quanto no nível dos incentivos fiscais. Não basta, portanto,
incluir na legislação cláusulas mandatórias
quanto à distribuição de fundos. Tomam-se também
necessária uma ação cotidiana que permita a eficiente
utilização desses recursos.
É
preciso formular as políticas setoriais de desenvolvimento tecnológico
que contemplem a interação do MCT e suas agências
com os bancos e agências de desenvolvimento regional, como SUDAM,
SUDENE, BASA E BNB, de modo a tornar viável as estratégias
setoriais das cadeias produtivas brasileiras. Essa abordagem setorial
deverá subsidiar a adequada destinação de fundos
setoriais já criados, como as áreas de petróleo e
energia, e de outros a serem criados.
O
Plano Nacional de C&T do Setor de Petróleo e Gás
CTPETRO prevê investimentos de recursos dos royalties da
produção de petróleo e gás natural, da ordem
de 1 bilhão de reais nos próximos cinco anos. Desse total,
pelo menos 40% serão aplicados em programas de apoio à pesquisa
cientifica e desenvolvimento tecnológico da industria do petróleo
nas Regiões Norte e Nordeste.
Os
Estados dessas regiões precisam preparar-se para absorver e tirar
proveito dessa situação extremamente favorável. Nesse
sentido, ainda em novembro passado, foi divulgada pelo MCT uma chamada
especifica de apoio à infra-estrutura laboratorial nessas regiões.
Também
no âmbito das ações regionais, ressaltaria o importante
trabalho que veio sendo realizado no âmbito do Subprograma de Ciência
e Tecnologia do PPG7, com o objetivo de promover a geração
e a disseminação do conhecimento científicos e tecnológicos
relevantes para a conservação e desenvolvimento sustentáve1
da Região Amazônica. Dos 250 milhões de dólares
alocados na primeira fase do PPG7, cerca do 50 milhões de dólares
destinaram-se ao Subprograma do C&T o novos recursos já estão
sendo negociados.
Na
segunda-feira próxima, realizaremos um grande seminário
em Manaus para ava1iação com toda a transparência
de 23 projetos já realizados e de 30 outros que se encontram
em fase de 1ançamento.
Inúmeros
são os exemplos bem sucedidos e inúmeros são as possibilidades
futuras de ações coordenadas. Sem desejar me estender demasiado
em sua enumeração, ressaltaria ainda algumas ações
que vêm sendo conduzidas pelo Ministério da Ciência
e Tecnologia em parceria com outros órgãos federais e com
os Estados, como:
-
os convênios de cooperação do CNPq com as Fundações
do Amparo à Pesquisa;
- a imp1ementação
dos Programas Regionais do Pesquisa e Pós-Graduação,
em parceria do CNPq e da CAPES com os Estados;
- o Programa
do Apoio às Tecnologias Apropriadas, cujo principal campo do
atuação situa-se na extensão tecnológica,
em particular no Norte, Nordeste e Centro-Oeste; e
- as bolsas
do desenvolvimento cientifico regional e aqui eu ressaltaria
que os Centros do Vocação Tecnológica do Ceará
têm sido beneficiários desse apoio, graças ao empenho
pessoal do Secretário Ariosto Holanda, com quem me congratulo.
Gostaria,
portanto, do propor desafios como esses ao Fórum de Secretários
de Estado de Ciência e Tecnologia, uma instância privilegiada
de reflexão. Na busca de encontrar soluções para
tais desafios, o Ministério da Ciência e Tecnologia une-se
aos Estados, em um esforço que deve ser pautado pelo diálogo
e pela articulação.
Exemplo
exitoso dessa coordenação entre os níveis federal
e estadual ocorreu aqui mesmo no Ceará. Em 1983, não havia
capacidade de previsão do fenômeno El Niño no Brasil,
perdendo-se 90% da safra do Nordeste. Em 1992, o INPE já podia
realizar previsões seguras do tempo, tendo alertado alguns Estados
com grande antecedência. Com os trabalhos de prevenção,
foi possível plantar três vezes mais e perder não
mais do que 50% da safra, performance notável, pois foi essa uma
das secas mais intensas da década.
Mas
este mesmo exemplo revela que aqui também há muito a realizar.
Hoje, está na agenda pública a constituição
do um efetivo sistema nacional de meteorologia que integre as ações
dos diversos atores envolvidos centros do pesquisa, redes estaduais,
usuários setoriais, como agricultura e aviação. Aumentar
a capacidade de provisão, dar conta da diversidade de micro-climas,
antecipar-se aos fatos e reduzir riscos e perdas é o grande desafio.
Isso pressupõe descentralização, articulação
e coordenação, um novo desenho institucional. E também
pressupõe investimentos.
Cabe
ao MCT desempenhar a coordenação desse sistema e cabe-nos
também mobilizar todos os atores para angariar os recursos necessários
ao aprimoramento da rede meteorológica nacional, inclusive da rede
básica de coleta e da capacidade computacional dos centros regionais.
São
fatos como esse social, econômica e politicamente importantes
que exigem a melhor articulação em todos os níveis
de Governo. Eu finalmente arriscaria dizer que a ciência e a tecnologia
são importantes demais para ficarem apenas nos laboratórios,
pois dizem respeito não só ao Governo, mas à toda
sociedade brasileira e ao seu processo de desenvolvimento econômico
e social.
Muito
obrigado.
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